12 de junho de 2014

A pátria em chuteiras

Historiador descreve o papel das crônicas de Nelson Rodrigues na união nacional em torno da Seleção
Por Luiz Henrique de A. Borges

Por mais uma vez os brasileiros irão parar suas atividades para assistir a Seleção Brasileira participar de outra Copa do Mundo. A euforia já toma conta do país, demonstrando a nossa forte identificação com o futebol.
Talvez, por isso mesmo, tenhamos a impressão bastante disseminada e fruto de um processo bem sucedido de naturalização, de que o futebol é algo inerente ao brasileiro. E podemos até pensar, se não somos os inventores desse esporte, tal fato só se deu em virtude de alguma piada do destino.
O futebol, esporte bretão, chegou ao Brasil em fins do século dezenove e tornou-se, inicialmente, uma prática esportiva muito comum entre os membros de nossa elite, servindo inclusive como elemento de diferenciação em relação aos outros grupos sociais. Porém, esse exclusivismo não se perpetuou e, de forma surpreendentemente rápida, esse esporte foi sendo apropriado por todos os setores da sociedade brasileira, tornando-se não apenas uma das nossas riquezas como nação, mas também uma das nossas principais caixas de ressonância social.
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Sobre Nelson Rodrigues...
Para o cronista, o brasileiro sofria de um grande mal, a falta de confiança em si mesmo, sempre se colocando em uma posição de inferioridade frente ao estrangeiro, em especial aos europeus. “Não havia tristeza”, dizia ele, “mas um fatalismo bovino. No fundo, no fundo, só estávamos preparados para perder”.
 Havia uma tendência à desvalorização do futebol e do jogador brasileiro, esse “ufanismo às avessas”, usando as palavras do próprio Nelson, estaria principalmente relacionado ao fracasso do Brasil na Copa de 1950, quando fomos derrotados na final, em pleno Maracanã, pela seleção do Uruguai.
Ao contrário de parte da imprensa nacional que acreditava que a instabilidade emocional do brasileiro, que ficou patente na derrota frente ao Uruguai, era decorrente da nossa mestiçagem, Nelson Rodrigues acreditava que a citada instabilidade era fruto de um arraigado sentimento de inferioridade que o brasileiro, voluntariamente, admitia ter em relação aos estrangeiros, que minava qualquer possibilidade de realização e vitória do selecionado nacional e que ele denominou como “complexo de vira-latas”.
O “complexo de vira-latas” é recorrente nas crônicas rodriguianas. Tal complexo é esquecido quando das grandes vitórias, mas retorna nos momentos de derrota. Dessa forma, segundo Nelson, o futebol teria uma importância moral imensa para todos os brasileiros. E ele chegou mesmo a escrever, quando da suada vitória do selecionado nacional sobre os espanhóis na Copa de 1962: “Amigos, era ali ou nunca. Setenta e cinco milhões de brasileiros precisavam mais do gol que todo o Nordeste de água e pão”.
Se Nelson sempre acreditou no futebol brasileiro, a representação do Brasil como país do futebol precisou sustentar-se em acontecimentos que, efetivamente, permitissem sua legitimação, dando-lhes foros de “verdade”, o que se confirmou nas vitórias dos clubes brasileiros no exterior e principalmente do selecionado nacional a partir da Copa de 1958, quando se sagrou campeão do mundo na Suécia.
A euforia com as vitórias era tanta que, para Nelson Rodrigues, o brasileiro era uma nova experiência humana, sendo inclusive apresentado agora como um homem genial, repleto de virtudes e qualidades. Os elementos singulares e identitários brasileiros eram destacados, tais como: a molecagem, a improvisação e a esperteza que caracterizariam o nosso estilo de jogar, denominado de “futebol-arte”.
Em contrapartida, o que mais preocupava o nosso cronista, no momento das derrotas, era a negação da nossa própria identidade, da nossa forma de jogar, da “narrativa” própria do nosso futebol e a busca e valorização de “narrativas” importadas, que ganham força no denominado “futebol-força”. Em suma, Nelson sempre se insurgiu contra a desvalorização do “futebol-arte”.
Para ele, o brasileiro não precisaria imitar os europeus ou mudar radicalmente suas características mais marcantes para alcançar as vitórias. Bastaria aprimorar as suas virtudes e ter consciência dos seus defeitos. Os nossos craques teriam o que falta aos outros, isto é, a fantasia, o “élan” criador, a molecagem, a malandragem e a paixão. A nossa habilidade e criatividade, a prática do “futebol-arte”, em suma, além de nos diferenciar de outras seleções e equipes, seria a grande responsável pela nossa dita superioridade futebolística.  Segundo o cronista, “o brasileiro não se parece com ninguém, nem com os sul-americanos. Repito: o brasileiro é uma nova experiência humana”.
Quando as Copas se aproximavam, Nelson buscava, de forma veemente, associar a nação brasileira ao futebol em suas crônicas. Para ele, a nação se uniria em torno do selecionado, seria “a pátria em chuteiras”.
Percebe-se que o jogo, mais do que uma disputa desportiva, também revela o “confronto” de culturas e de identidades. Demarca diferenças e nos individualiza. Nelson Rodrigues percebeu claramente, em seus escritos, que no campo e na vida, na ginga e no jogo, no peito e na raça se fundem brasilidade e futebol. Torcer é pertencer. Entre atitudes corporais, discursivas e sociais se afirma um sujeito nacional, se inventa um brasileiro.
O Brasil se colore de verde e amarelo da aquarela desse esporte das multidões. Somos brasileiros na confiança e na desconfiança, no otimismo e no pessimismo.  Do complexo de vira-latas ao homem genial estamos impregnados pela linguagem do mundo da bola. Especular sobre o futebol é especular sobre “o que faz o brasil Brasil”, tomando de empréstimo a expressão de Roberto DaMatta. E, sem temer certa dose de determinismo, enquanto existir uma partida de futebol existirá também um brasileiro. Suor e pulsação, romance e surpresa... eterno, assim como as crônicas de Nelson Rodrigues.
*Luiz Henrique de Azevêdo Borges é professor da Universidade Estadual de Goiás e da Faculdade Cambury Formosa e historiador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
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