6 de junho de 2017

Comunidades virtuais: ambientes colaborativos para trabalho em rede

A cha­mada so­ci­e­dade da in­for­mação e do co­nhe­ci­mento traz con­sigo im­pactos ca­pazes de levar a uma trans­for­mação maior que a pro­du­zida pela má­quina a vapor. Junto com novas so­lu­ções e pers­pec­tivas vêm também al­gumas exi­gên­cias de ha­bi­li­dades atuais, como saber “na­vegar” na In­ternet (algo entre o me­tó­dico e o caó­tico), mas também novas exi­gên­cias sobre an­tigas ha­bi­li­dades, como o ser or­ga­ni­zado, o saber es­crever em seu idioma, ler ou­tras lín­guas…

Um am­bi­ente vir­tual co­la­bo­ra­tivo e in­te­ra­tivo pres­supõe re­gras de con­vi­vência que por se tratar de uma coisa nova as pes­soas pa­recem se es­quecer. Assim, é fun­da­mental cada um cuidar de sua apa­rência, ou seja, ter seu perfil on­line bem pre­en­chido, de pre­fe­rência com uma foto para que os de­mais te­nham uma re­fe­rência vi­sual. É im­por­tan­tís­simo que as mensagens tro­cadas pos­suam um mí­nimo de cor­di­a­li­dade, co­mecem com os tra­di­ci­o­nais bons dias e ter­minem com um abraço ou algo mais formal, tudo desde que não trans­mita para a outra pessoa a im­pressão que você é um software ou, pior, que você acha que ela é algo pa­re­cido com um caixa au­to­má­tico de banco.

In­cor­porar essas tec­no­lo­gias em sala de aula é uma opor­tu­ni­dade de abordar as­pectos da so­ci­e­dade, ques­tões éticas etc. de ma­neira prá­tica e rica. As redes so­ciais são um es­pelho das so­ci­e­dades e devem ser en­ca­radas como in­te­res­santes opor­tu­ni­dades de re­pensar e observar con­dutas.

Para que exista vida numa co­mu­ni­dade vir­tual, é im­por­tante pensar-se sempre no que as pes­soas estão fa­zendo ali. Pes­soas só se juntam em co­mu­ni­dade por in­te­resse, por prazer ou por obri­gação. Uma co­mu­ni­dade es­colar co­meça por ser obri­ga­tório frequentar a es­cola. Uma co­mu­ni­dade pro­fis­si­onal inicia-se pelo in­te­resse das pes­soas em ga­nhar seu sus­tento. Um grupo de amigos fa­zendo um chur­rasco num final de se­mana tem como motor o prazer do con­vívio.

Num am­bi­ente de tra­balho ou con­vívio em rede as coisas não são di­fe­rentes. Num pri­meiro mo­mento, a cu­ri­o­si­dade pode levar as pes­soas a se ca­das­trar numa co­mu­ni­dade vir­tual, mas em poucos dias o in­te­resse ini­cial pode virar aban­dono se não hou­verem in­te­resses claros em jogo, se não houver uma ne­ces­si­dade real de estar co­nec­tado, seja por lazer, por mo­tivos po­lí­ticos ou pro­fis­si­o­nais.

Assim como na vida real pe­quenos lu­ga­rejos crescem eco­no­mi­ca­mente ao fa­zerem trocas com ou­tros, cons­truindo es­tradas e pontes a ligá-los, tro­cando ba­nanas por café através de car­roças ou trens, pro­mo­vendo novas ami­zades, ca­sa­mentos, cons­truindo re­la­ções econômicas e cul­tu­rais, num ca­minho que acabou le­vando à cons­trução das na­ções – também na vida vir­tual a coisa se pro­cessa de modo se­me­lhante, pois o fator prin­cipal é o mesmo: a hu­ma­ni­dade.

Também como numa co­mu­ni­dade real, criar e manter uma co­mu­ni­dade vir­tual dá muito trabalho, de cons­trução, de ma­nu­tenção, de ad­mi­nis­tração. No início é até mais di­fícil, pois trata-se de um novo pa­ra­digma, é ne­ces­sário levar as pes­soas pela mão, ex­plicar o que é cada am­bi­ente, como fun­ciona cada fer­ra­menta. Quase como se ti­vés­semos que en­sinar um marciano a pegar um táxi ou usar um te­le­fone pú­blico, coisas des­co­nhe­cidas para nosso impro­vável ali­e­ní­gena.

É pre­ciso cuidar de cons­truir os “edi­fí­cios” dessa co­mu­ni­dade (bancos, es­colas, bi­bli­o­tecas, hos­pi­tais) e de­pois re­cheá-los de con­teúdos e ter pro­fis­si­o­nais en­ga­jados na sua ma­nu­tenção, pois além de pro­dutos (di­nheiro no banco, li­vros nas bi­bli­o­tecas, re­mé­dios nas far­má­cias) temos aqui ser­viços (pro­fes­sores na es­cola, mé­dicos nos hos­pi­tais, juízes nos tri­bu­nais). Tudo isso exige lei e ordem, re­gras claras de com­por­ta­mento, bem como um mí­nimo de democracia para que o au­to­ri­ta­rismo não mate os sa­bo­rosos frutos que só a li­ber­dade produz.

Tudo isso exige ad­mi­nis­tração, uma pre­fei­tura e al­guns fun­ci­o­ná­rios pú­blicos, senão os serviços es­sen­ciais podem im­pedir a fluidez de cir­cu­lação dos bits (pois que numa comunidade vir­tual cir­culam os bits e não os átomos, cir­culam os bytes e não as mo­lé­culas).

Na so­ci­e­dade da in­for­mação as pes­soas não mais pre­cisam des­locar o corpo para aces­sarem uma in­for­mação (tenho que pegar um ônibus e ir à bi­bli­o­teca antes que feche), mas agora fa­zemos a in­for­mação vir até nós. Isso muda um bo­cado o jeito de fa­zermos coisas que já fa­zíamos antes, e é esta mu­dança pa­ra­dig­má­tica que pre­cisa ser tra­ba­lhada, com es­tí­mulo, com or­ga­ni­zação, com ob­je­tivos, com es­forço in­di­vi­dual e co­le­tivo.

SEABRA, Carlos. Redes Sociais e comunidades virtuais na educação. Oficina Digital. Formação de Professores. Edição 2017.
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